Costumo dizer que as resenhas mais difíceis de escrever são as de um livro que gostamos muito ou que nos modificou de alguma forma. O livro do destino é um desses livros que te proporciona tanta coisa que uma só resenha não é capaz de abranger tudo: é preciso uma análise capaz de revelar qualquer mistério. Primeiramente, gostaria de dizer que um dos meus projetos para este ano era justamente de ler mais literatura mundial - e quando digo mundial, refiro-me a uma literatura que não se resuma em nacional, americana ou inglesa. Motivo pelo qual, quando a editora Record me enviou um e-mail com os lançamentos do mês, a primeira coisa que me chamou a atenção em O livro do destino foi a seguinte frase: o romance proibido que se tornou best-seller no Irã. Proibido. Para que um livro seja proibido - não importa o lugar! -, deve conter algo polêmico em seu conteúdo. Comecei a me perguntar o porquê do livro ter sido proibida e só encontraria a resposta de um único jeito: lendo o livro.  

O livro conta a história de Massoumeh. Adolescente na Teerã pré-revolucionária, ela é uma jovem determinada e sedenta por conhecimento. No caminho de sua casa até a escola, ela conhece o novo funcionário de uma farmácia, um homem encantador por quem se apaixona e começa a trocar cartas de amor. Quando sua família descobre, ela é castigada e vista como desonra por estar flertando na rua com um desconhecido. Procurando limpar a imagem de Massoumeh, a família trata de casá-la rapidamente com um homem que ela nunca viram. No entanto, Massoumeh não teve a sorte, nem o azar de casar-se com um homem comum. Hamid, seu marido, é um dissidente marxista perseguido pelo regime opressor do Xá. Os anos seguintes ao casamento de Massoumeh se revelam muito importantes para a história do Irã. 

É preciso dizer que esta sinopse, muito provavelmente, não aborda nem 1/3 do que o livro realmente é. Preciso, também, avisá-los que começar esta leitura é um desafio. É necessário jogar-se na mesma de mente aberta, desprovido de qualquer pensamento etnocêntrico. E por que? Porque Parinoush Saniee, a autora, te leva a uma verdadeira viagem. 

A graça da literatura é justamente de nos proporcionar viagens a lugares nunca antes visitados por nós mesmos. Ler O livro do destino é deparar-se com um Irã muito diferente do que se vê constantemente na tevê: um Irã pré-revolucionário, revolucionário e pós-revolucionário. A primeira coisa que podem pensar é: como assim?! Revolução no Irã?! Naquele país?! Sim, meu caro, seu professor de história muito provavelmente não mencionou e existem grandes chances de isso nunca ser mencionado durante toda a sua vida, fazendo jus a frase "morria sem saber", mas o Irã passou por um confuso período revolucionário que resultou na atual República Islâmica do Irã. 

A narrativa de Massoumeh é uma verdadeira aula - tanto de história quanto de cultura. De um conteúdo tão profundo, de uma crítica intensa e interna as raízes de uma sociedade tão distorcida pelo olhar ocidental, o livro chega até mesmo a ajudar a compreender situações geopolíticas atuais e a analisar a posição da mulher na sociedade iraniana em cinco décadas. 

Massoumeh é uma forte representação do feminino na literatura. Ouso dizer que uma das representações mais marcantes para mim. Acompanhamos todo o progresso - e regresso - da personagem durante as mais de quatrocentas páginas, de modo que por muitas vezes, sua fúria se torna nossa e sua luta se torna nossa luta. Massoumeh é renegada e surrada pela família, casa-se com um homem perseguido pelo regime opressor da época, tem sua casa invadida mais de uma vez, cuida dos três filhos sozinha e não consegue concluir os estudos. O panorama geral é de uma vida regada a desventuras. De fato, o sofrimento de Massoumeh é frequente, mas a determinação da personagem perante uma sociedade sob constantes mudanças políticas e religiosas supera a notoriedade. 

Apesar dos pesares, o livro não é só sobre Massoumeh. É sobre o Irã e esta parte da história se desencadeia a partir dos acontecimentos que giram em torno de Massoumeh. O leitor é levado da raiz dos problemas até o resultado da revolução. Não minto, me encantei ao deparar-me com um Irã dividido entre religiões e ideologias, um povo - que embora dividido - soube se unir por uma causa e posteriormente lutar individualmente por seus ideais - independentemente se eu concorde ou não com o resultado alcançado, não estou entrando nesta questão. 

Nunca carreguei estereótipos quando o assunto é Oriente Médio, no entanto, tenho noção da minha ignorância ao discutir sobre questões referentes ao mesmo. Felizmente, uma parte da minha curiosidade foi saciada ao ler este livro. O livro do destino é como sair da caverna de Platão! Sinto-me outra pessoa ao fim da leitura, o que o torna tão difícil de resenhá-lo, pois me modificou muito positivamente. 

Diria que O livro do destino é um livro que todos deveriam ler para conhecimento próprio, mas sei que não é para todos. Mente aberta, meus caros! Antes que eu me esqueça, a editora Bertrand merece uma salva de palmas por publicar um livro tão intenso e maravilhoso quanto este! 

Deixe-os com um artigo escrito por um blogueiro brasileiro que visitou o Irã com sua esposa há dois anos. Cuidado: os relatos podem ser surpreendentes! Só que de tão lindos. 
O país mais injustiçado do mundo, por Gabriel. E o depoimento de sua esposa: Mulher e turista no Irã

Titulo: O livro do destino
Autor(a): Parinoush Saniee
Número de páginas: 461
Editora: Bertrand Brasil
Nota do Como Devorar Livros: 5/5

4 Comentários

  1. Ola querida,
    Parece ser um livro muito interessante e com uma mensagem maravilhosa, sem falar na cultura que passa. Adorei sua dica. Gostaria também de deixar um convite hoje para dar uma passadinha lá no blog, pois postei um novo conto de minha autoria com direto a trilha sonora e tudo e adoraria saber sua opinião.
    Beijos
    Raquel Machado
    Leitura Kriativa
    http://leiturakriativa.blogspot.com
    Beijos

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    Respostas
    1. Super recomendo que você leia esse livro!
      Vou dar uma passadinha lá sim! :)

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  2. Aceitei sua sugestão e comecei a ler. Realmente uma verdadeira aula de história e de cultura. Obrigada, dou 5 estrelas!!!


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  3. Aceitei sua sugestão e comecei a ler. Realmente uma verdadeira aula de história e de cultura. Obrigada, dou 5 estrelas!!!


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