Uma parte do meu eu teatral para vocês. 

Chega uma hora em que as pessoas começam a te perguntar: e aí, o que você vai fazer da vida? 

É isso mesmo? O que eu vou fazer da vida? Por acaso, só por acaso, irei morrer amanhã e não sei? A vida é algum tipo de objeto que se troca de lugar? Ah, desta vez, colocarei a vida próxima a janela. O que farei da vida? Mais do que vivê-la, irei vidá-la, do verbo vidar. Pouco me importa se este verbo existe ou não. A minha resposta é: vidar a vida. 

Mas não é isso que as pessoas querem ouvir, elas esperam outra coisa. Elas querem saber se você fará Direito na UERJ ou Medicina na UFRJ, porque o salário de um juiz é x e o de um médico é y. Independente de sua resposta, provavelmente escutará um "o importante é fazer o que gosta". E se você disser que gosta de fazer malabarismo no sinal? Aí, meu amigo, a resposta é unânime: você vai morrer de fome. 

Morrer de fome? Todo dia morre alguém de fome na África e nem por isso as pessoas se importam. O problema da sociedade é querer moldá-la conforme os seus gostos e vontades. Afinal, ser um advogado é mil vezes melhor do que passar um dia inteiro em frente a um quadro negro, falando as coisas que está cansado de repetir. 

Chega uma hora - e sinto dizer, essa hora chegou para mim - em que todos os assuntos giram em torno de seu futuro. O seu futuro, o futuro que você cria, constrói, como aqueles blocos de brinquedo, que você pode transformar em prédio ou casa. 

Então surgem as típicas lições de conhecimentos gerais, porque no Brasil isso, no Brasil aquilo. Pelo menos, o Brasil não é a Nigéria ou o Haiti. 

Hoje, enquanto fazia minha unha, a manicure falou: "o meu filho vai fazer o que ele quiser. Se ele quiser fazer balé, é balé que ele vai fazer". Em seguida, fez a pergunta que ilustra esse texto. Respondi, não "o que vou fazer da vida", mas sim, o que pretendo cursar em uma faculdade. "Ah, mas você sabe que o salário...". Dinheiro é sempre um assunto tão complicado, tão complexo e infeliz. 

Parando para pensar em tudo que me aconteceu nos últimos anos, acho que estou vidando a vida. Estou fazendo e fiz tudo aquilo que me agrada. Aprendi a tocar violão e tornei a música ainda mais parte de mim; fiz teatro e só depois aprendi que teatro não se faz sozinho; mantive as amizades que nunca achei que conseguiria manter e em contra partida, fiz amizades que nunca achei que fosse criar; comecei a estudar japonês, coisa que eu tanto queria; iniciei um curso técnico, que embora eu não goste, me torna uma pessoa mais feliz; adquiri um pouco da independência que desejava porque o ser-humano nunca se torna completamente independente; voltei a escrever poemas; criei um blog que posso chamar de meu; passei minhas férias inteiras offline. 

Quer saber? Eu acho que estou no caminho certo. O certo para mim pode não ser o conceito contido no dicionário social, mas é justamente o certo que eu criei, que caligrafei, que montei. O importante para mim é saber que estarei vidando a vida independente do lugar em que eu esteja ou do curso que optei por estudar na faculdade. Então, da próxima vez que me perguntarem o que quero fazer da vida, sejam bem mais precisos, afinal, o que vocês querem realmente saber? Em que área quero trabalhar ou de que forma transformo vida em verbo? 

O que será daqueles que não vidam suas próprias vidas? 

Meus pêsames. 

12 Comentários

  1. Tenha a plena certeza de que seja qual for a sua escolha, eu estarei sempre ao seu lado "vidando" com você as nossas vidas. Bjs

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  2. "O que você vai fazer da vida?" é mesmo uma construção bastante infeliz. Pois, querendo ou não, coloca um prazo para sua vida em determinado tempo não poder mais se transformar. "Vidar" é melhor: é infinitivo, não se situa no tempo nem espaço. É movimentar-se. Outra coisa que eu odeio é quando respondem "Você vai fazer mesmo isso? Por que não estuda para ser alguém na vida?" Como se fosse preciso ser infeliz para ser alguém. Na verdade, acho o contrário: nós, humanos, somos os únicos seres que existem e depois se definem. Se pré-determinamos o que cada pessoa vai ser, ignorando suas vontades, como podemos diferenciar uma pessoa de, por exemplo, uma caneta, que nasce e tem sua função definida sem lhe perguntarem nada? Nós não existimos apenas dentro do carro do ano ou com a conta bancária cheia. Ótimo texto, Becca. Suscita bastantes questões.

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  3. Lindo texto, Rebecca. O importante é você poder olhar para trás e dizer que tudo valeu a pena. Como disse Fernando Pessoa, 'Tudo vale a pena, se a alma não é pequena'. Bjs

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    1. Olá, professor!
      Fico muito feliz que tenha gostado do texto. A opinião de meus professores e dos adultos em geral, sempre me conforta muito. Esta frase de Pessoa é incrível, não é por acaso que estou muito interessada nas obras deste grande poeta.
      Muito obrigada pelo elogio e pela visita! Thank you very much!

      Rebecca

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  4. A questão levantada é muito pertinente e você a abordou de uma maneira bem completa. Acredito que devemos fazer o que gostamos sem nos importar com a opinião dos outros, mas em determinadas situações as opiniões dos outros se aglomeram, formando uma grande crítica, e aí a nossa atenção é tomada. Ou nos conformamos e aderimos ao conceito de "ser alguém na vida", trabalhando das 9 às 6; ou nos fortalecemos e não nos rebaixamos perante as críticas.
    O nosso futuro só é vivido por nós mesmos e, se não "vidamos" a vida e fazermos o que gostamos, mas passamos a seguir convenções sociais; seremos apenas mais um hipocondríaco a comprar remédios para depressão na farmácia mais próxima de casa.

    http://discodivinil.blogspot.com.br/

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    1. Olá, Arthur!
      Eu gosto muito dos seus textos, então, vindo de você, eu me sinto muitíssimo elogiada. Adorei a parte do hipocondríaco e concordo plenamente com o que você disse. Fico feliz que tenha lido o texto e espero que tenha gostado do que leu. Muito obrigada pela visita, pelo comentário e pelo elogio!

      Rebecca

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  5. Linda texto, Becca! Eu sou do tipo que vivo o agora. Eu não penso muto no futuro, sabe. Planejar muito não é comigo. Acho que o importante é viver o agora e deixa rolar.

    Bjs, e Parabéns pelo texto, pelo Blog que é lindo demais!

    http://contos-de-duas-doidas.blogspot.com.br/

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    1. Olá, Ana Caroline!
      Fico muito feliz que tenha gostado do texto e mais ainda, que você viva no presente, porque o futuro é só amanhã e temos ainda, um dia inteiro pela frente.
      Muito obrigada!

      Rebecca

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Becca!!!! Super parabééns! Eu ameeei! Não acredito que demorei tanto tempo pra conhecer isso!!! Lindo!!! Amei tudo! Vou aproveitar pra fazer a visita completa! Você está com certeza "vidando" a vida da forma a a vida merece ser "vidada"! To muito orgulhosa!!! Beijãão!!!! <3

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    1. Oi, Nara!
      Fico feliz que tenha gostado do texto e mais ainda por você ter finalmente entrado no meu blog. Mesmo tendo que me aturar um ano inteiro pedindo para visitá-lo, só agora que você decidiu dar uma olhada, né?!
      Muito obrigada! <3

      Rebecca

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  8. Amei o texto! Profundo!
    Acho, também, que todos deveriam "vidar" suas vidas! E não só pensar desesperadamente que precisa fazer uma faculdade e ganhar um salario enorme pra ser feliz. Tipo: só irá se dar bem se for engenheiro, arquiteto, advogado e por aí vai! E se você quiser ser manicure ou escritora? É exatamente o que você disse: vai morrer de fome. Esse pensamento me cansa demasiadamente, porque as pessoas sonham pequeno, então aqueles que sonham grande são esquisitos. Você falou tudo no seu texto! Parabéns!

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