Quando a paz gosta da rotina


















Hoje eu meio que estou em paz. 

Acordei no mesmo horário de sempre, quando o despertador toca e o sol já raiou. Peguei o mesmo ônibus, que demorou para passar e que quando passou, veio cheio. Passei os minutos seguintes como uma sardinha apertada entre outras sardinhas tão apertadas quanto eu. Desci no mesmo ponto e fiz o caminho que estou mais do que acostumada a fazer. Ah, o sinal demorou para abrir, é claro. Esbarrei com rostos conhecidos, do tipo "vi, mas nunca falei" e também desconhecidos. Mas isso não me impediu de seguir. 

Apesar de ser segunda-feira, eu fiquei acordada nos primeiros tempos de aula. Fiquei confusa, como sempre, nas exatas. A Luz faltou, mas depois ela apareceu, para por um fim ao calor e colocar seu nome na chamada. Conversei com as mesmas pessoas e tive aula com os mesmos professores. Percorri os mesmos corredores que percorro há mais de um ano. Comi o clube social do único sabor que considero gostoso. Bebi o guaravita da marca que mamãe sempre compra e que, por acaso, está acabando. 

Eu voltei, no mesmo ônibus, peguei trânsito no local de costume. Almocei e dormi. Dormi a tarde inteira e só depois me lembrei que precisava estudar para a prova do japonês. Mas não dava tempo, eu tinha de ir para o curso. E eu fui. Desci novamente, peguei o ônibus, desembarquei. Tudo novamente, como uma rotina. 

De uma forma ou de outra, eu me sentia em paz. Não com o mundo, mas comigo mesma. Mesmo que, ao me buscar no curso, minha mãe tenha estacionado em frente a um canteiro e eu não tenha conseguido abrir a porta do carro. E então ficamos desesperadas. Primeiro, porque estávamos paradas em local proibido. Segundo, o ônibus estava vindo. Terceiro, eu ainda sim, não conseguia abrir a porta. No entanto, tudo se acalmou quando comecei a contar da minha aula, do meu dia, ao som do meu grupo pop favorito, que não direi o nome, pois estou cansada de ouvir a típica pergunta: quem? 

Mesmo sendo segunda-feira, o pior dia da semana, competindo só com quarta-feira, eu estava bem. Na verdade, estou bem. Não somente saudável, inteira, mas de bem com o mundo e procurando entender todos os sinais que nos proporciona o universo. Tentando entender o porquê das rotinas, o porquê de ter pego justamente aquele ônibus cheio e não um que estivesse vazio, o porquê de ter falado com as mesmas pessoas e não aquelas que conheço só de olhar, o porquê de ter chegado em casa e começado a escutar um CD que não escuto há seculos, o porquê de meu irmão ter vindo pedir ajuda no dever de português logo a mim ao invés de deixar tudo em branco. 

Tentando compreender, acima de tudo, o porquê de acordar bem quando quarenta e oito horas antes, o meu estado era completamente outro. Emocionalmente, sentimentalmente. Essas palavras que a gente gosta de usar com sufixo -ente. Achando defeito nas coisas mais bonitas, sem paciência para os filmes repetidos no MegaPix.

Para ser sincera, eu não tenho a resposta e também não sei se entendi bem a pergunta. Pode repetir, professor? É para responder agora ou no caderno? Posso levar para casa e pesquisar na internet? 

Em meio a tantos questionamentos e sentimentos à flor da alma, descobri que sou como o céu; que ora se fecha, com nuvens carregadas e enfezadas, que chora em forma de pingos de chuva; e ora se abre, radiante, energizando, unindo-se a companhia das nuvens, que mais se parecem com delicados pedaços de algodão em um azul infinito. 

A paz invisível e inaudível se aconchegou aos braços da rotina em uma rede confortável, balançando de um lado para o outro, escutando o som das cigarras, o bater das ondas ao longe e da brisa gélida vinda do mar. Tudo está bem quando termina bem. 

E eu estou bem, precisa de por que ou explicação a alguém? 

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3 pessoas devoraram

  1. Texto maravilhoso... Tinha que ter sido escrito por você!

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  2. Rebecca, escrever, se expôr, se colocar ainda que como igual a todos não é para qualquer um! Fazer tudo isso com charme é somente para os fortes! =)

    Parabéns!

    =)

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