Existem diversos tipos de leitores e nenhum permanece sempre o mesmo. Acada leitura, o leitor está suscetível à mudanças. Há livros que exigem calma, atenção, outros que te despertam fúria, tristeza, duvida, incômodo. Há livros que nos fazem felizes ou chorar de emoção. As emoções geradas por um livro são capazes de mudar um leitor. O que quero dizer como tudo isso é que, cada vez mais, tenho percebido mudanças em mim como leitora. A literatura se tornou uma extensão de mim há mais ou menos oito anos. Durante todo esse tempo, nunca senti uma transformação como a que tenho sentido nos últimos tempos.

Como tenho mudado como leitora, minhas preferências literárias também expandem e eu me pego lendo obras que nunca me imaginaria lendo. Livros que instigam e incomodam, que tornam a leitura algo como estar à flor da pele. Ao olhar a minha estante, reconheço todas as minhas fases e como minhas leituras têm se diferenciado. É interessante perceber, através da literatura, o meu crescimento como pessoa. Não consigo pensar em uma vida de leitora sem ter passado pela literatura fantástica, a infanto-juvenil, jovem-adulto, os romances históricos.

Recentemente, li Travessuras de menina má de Mario Vargas Llosa. Tenho muito a dizer sobre essa obra e, por vezes, me pego refletindo sobre a mesma. Trata-se, inquestionavelmente, de um romance. Belo? Não, porém único em toda a sua crueza. Chega a ser difícil definir se, em algum momento, o que li pode ser tratado como amor. Caso possamos classificá-lo como tal, passa muito longe de ser um amor puro, mas um cheio de espinhos e feridas mal curadas. O romance muito me incomodou e ainda sim, me vi presa à história e apaixonada pela obra. Não quis largá-la de jeito maneira e há muito um livro não me despertava as emoções de que esse foi capaz.

Quando penso na minha admiração por esse livro, recordo-me como, até pouco tempo, qualquer romance a ser lido por mim tinha de ser romântico beirando ao água com açúcar, com um final feliz que me deixaria aos suspiros. Acho que meu pensamento mudou após ler Reparação de Ian McEwan, em que me senti uma peteca nas mãos do autor: eu sentia o que ele queria que eu sentisse, eu acreditava no que ele queria que eu acreditasse. Esta obra é outra que se tem muito para discutir, mas ela não deixa mesclar a minha concepção clássica de romance com um fim digno da minha visão atual. Não irei me aprofundar muito, pois não quero estragar a graça do livro.

Existem livros que requerem mais do leitor. Se antes tais livros me assustavam, agora eu me vejo abraçando-os e disposta a me aventurar por este ramo de literatura. Se clássicos eram quase inconcebíveis, preciso admitir que literatura inglesa clássica tem me despertado tanto interesse que tem sido difícil me conter. Isso sem falar da russa!, a qual me vejo agarrando muito em breve.

Embora tenha lido livros mais sérios e maduros nos últimos tempos, me transformado como leitora, a maior graça e dádiva da literatura é permitir que eu faça tudo isso sem precisar me desgarrar da fantasia, dos romances históricos, da poesia. É permitir que eu seja muitas leitoras dentro de um mesmo dia. A leitora atenta, aflita, romântica, calma, indignada, delicada.

Para mim, a literatura é a melhor espécie de magia.

Um Comentário

  1. Amei! Também mudei muito ão longo dos anos, os livros me ajudaram a enxergar e a aprender muitas coisas. Parabéns pelo texto.

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